"O aumento dos ataques indica que o Ocidente fracassou em coagir a Rússia a interromper sua campanha de sabotagem e subversão", diz o texto
Um relatório divulgado no começo do mês de março pelo think tank americano Center for Strategic and International Studies (CSIS) revelou que a Rússia intensificou nos últimos anos suas ações de sabotagem contra os Estados Unidos e aliados europeus da Ucrânia.
Segundo o relatório, o regime do ditador Vladimir Putin tem recorrido ao uso de navios comerciais, explosivos, ciberataques, instrumentos cortantes de cabos submarinos – como âncoras – e até o envio coordenado de imigrantes ilegais para desestabilizar fronteiras do Ocidente.
Um levantamento feito pelo CSIS, que foi apresentado no relatório, apontou que o número de ataques orquestrados "nas sombras" por Moscou na Europa quase triplicou entre os anos de 2023 e 2024, saltando de 12 para 34 incidentes com impactos físicos — como explosões, incêndios e cortes em cabos submarinos (que servem para tranferir dados digitais, como internet, telefonia e tráfego privado). A maioria das ações foi conduzida pelo serviço de inteligência militar russo, o GRU, com apoio de agentes locais infiltrados, criminosos contratados e até recrutas estrangeiros que foram treinados em solo russo.
Os principais alvos das ações de sabotagem russas foram sistemas de transporte (27%), órgãos governamentais e militares (27%), infraestrutura crítica como cabos e dutos (21%) e a indústria de defesa (21%). O relatório destaca que muitos desses alvos tinham ligação direta com o envio de armas ou apoio logístico à Ucrânia. Em termos de armamento, os meios mais utilizados pelos russos foram explosivos e artefatos incendiários (35%), seguidos por instrumentos contundentes ou cortantes – como âncoras de navios aparentemente comerciais para cortar cabos submarinos – (27%), ciberataques (15%) e o uso político de migrantes ilegais (8%).
O relatório, assinado pelo presidente do Departamento de Defesa e Segurança do CSIS, Seth Jones, afirma que essa estratégia russa representa uma "ameaça grave" tanto para os Estados Unidos quanto para a Europa.
"O aumento dos ataques indica que o Ocidente fracassou em coagir a Rússia a interromper sua campanha de sabotagem e subversão", diz o texto.
A "frota sombra" da Rússia
Entre os casos mais alarmantes apresentados no documento estão as ações contra cabos submarinos que ligam dados entre a Europa e os Estados Unidos, que geralmente estão sendo danificados por âncoras de navios comerciais da chamada "frota sombra" da Rússia — uma rede de embarcações de bandeiras falsas usada para burlar sanções internacionais. Um desses navios, identificado no relatório como Eagle S, foi classificado por agências europeias de segurança como responsável por danificar cabos submarinos de dados na região do mar Báltico.
Em paralelo, equipamentos eletrônicos contendo substâncias inflamáveis foram enviados por correio a centros logísticos da empresa DHL em três países — Alemanha, Reino Unido e Polônia — em uma possível tentativa de testar meios para infiltrar explosivos em aviões comerciais com destino aos EUA e Canadá.
"A intenção da Rússia era testar a rota de envio desses pacotes", afirmou a procuradora polonesa Katarzyna Calow-Jaszewska, responsável pela investigação.
Ações contra "desertores" no exterior
Além de alvos de infraestrutura, indivíduos também foram atingidos por ações atribuídas à Rússia. Em 2024, o piloto russo Maksim Kuzminov, que havia desertado para a Ucrânia, foi assassinado de forma misteriosa na Espanha. Embora o Kremlin negue qualquer envolvimento, Kuzminov havia declarado em diversas entrevistas que temia ser morto por ordem das autoridades do regime de Putin.
Também houve uma tentativa de assassinato contra Armin Papperger, CEO da empresa alemã Rheinmetall, fabricante de armamentos fornecidos a Kiev. Outro caso envolveu o espancamento de Leonid Volkov, ex-assessor de Alexei Navalny, em território lituano. A inteligência local classificou o ataque como "organizado por russos".
Onda de ciberataques e uso de imigrantes como arma
Em relação à ciberatividade, o CSIS documentou centenas de ataques russos com efeitos físicos, como interferência em sistemas de GPS que afetaram voos comerciais na Escandinávia. Países como Estônia, Polônia, Noruega e Lituânia também relataram sabotagens e tentativas de invasões a redes de transporte ferroviário.
Na fronteira leste da Europa, a Rússia e Belarus intensificaram o uso de migrantes ilegais como arma política, pressionando fronteiras de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) como Polônia, Letônia e Finlândia. Em novembro de 2023, por exemplo, 900 estrangeiros sem documentação válida tentaram atravessar a fronteira russa para o território finlandês, forçando o fechamento do trecho por tempo indeterminado.
Segundo o chefe do serviço de inteligência britânico MI6, Richard Moore, os fatos narrados tratam-se de uma "campanha incrivelmente imprudente de sabotagem russa na Europa", enquanto o diretor do MI5, Ken McCallum, afirmou que "o GRU está numa missão sustentada para gerar caos nas ruas britânicas e europeias: vimos incêndios, sabotagem e mais. Ações perigosas conduzidas com crescente imprudência".
O relatório do CSIS alerta que as respostas ocidentais — como expulsão de diplomatas, aumento de vigilância e reforço na ciberdefesa — têm sido insuficientes para conter o avanço russo.
"Essas ações não são particularmente onerosas para a Rússia e são improváveis de coagi-la a encerrar ou mesmo reduzir suas medidas ativas", ressalta.
Para o CSIS, é preciso que a Otan desenvolva uma campanha ofensiva calibrada, que envolva o endurecimento de sanções, operações cibernéticas ofensivas, campanhas de influência dirigidas à população russa e ações diretas contra ativos estratégicos de Moscou, como sua "frota sombra".
"Uma estratégia que não envolva o aumento dos custos para Moscou está fadada ao fracasso", conclui o relatório.
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